Subversa

Em Tempo Real | Morgana Rech (Porto Alegre, RS, Brasil)

É incrível que mais um outono já esteja chegando a Portugal. Do outro lado portodo mundo vejo fotografias da cidade onde renasci e que trazem consigo um pedaço da minha nova nação.

Tão contraditório é ter a experiência de pertença a uma nova pátria e ela permanecer do outro lado do oceano! Por mais que Portugal tenha vindo, em espírito, no meu novo corpo que pegou o avião, a vida e o cotidiano português estão lá, vivendo continuamente sem mim. Posso ver hoje outras pessoas habitando lugares que conquistei, ainda que brevemente, vestindo “casacas” confortantes perante as tardes cinzentas que se aproximam. Elas sentam nas mesmas cadeiras, nas mesmas poltronas, visitam os mesmos cafés, conversam (quem sabe) com pessoas que conheci, fazem provavelmente perguntas inocentes que só será respondida, mais do que nunca, em um bom português.

O outono em Portugal é como um revisitar diário à infância. Posso sentir como deve ser estar lá agora. Avós, doces e braços dados estão por todo o lado. Sim, talvez tenha sido uma questão de sorte, ter encontrado na minha trajetória lusa pessoas que tinham braços para me oferecer e agarrar-se aos meus, mas, ao ver as fotografias em tempo real de um Portugal no qual já não vivo, tenho a estranha sensação de que uma parte deste tempo real fica sempre muito exclusivamente, lá.

Outro dia acordei no meio da noite assustada pois estava nas Galerias de Paris, uma rua agitada e boêmia que remonta, no ar que circula entre os casarões, épocas sobre épocas de gargalhadas, exuberância e uma diversidade de amores achados e perdidos. Era verão, estação na qual a tristeza se afasta de Portugal exatamente como as chuvas que só retornam no outono e permanecem por longos dias.

Mais estranho do que a questão sazonal em si, foi a sensação de pertença que, no meu êxtase onírico, voltei a sentir por meu segundo país. Uma coisa é sonhar com um belo parque onde nunca estive, uma praia paradisíaca que me alivia a pressão do dia a dia, mas sonhar com a baixa do Porto foi como estar lá de verdade. Eu estava sentada descansadamente numa cadeira de alumínio dizendo aos meus amigos que seria o último copo, pois eu deveria ir para casa dormir e acordar cedo no dia seguinte para terminar a tese. Vê, como eu estava lá, e o verão era interminável?

Sim, é incrível que mais um outono esteja chegando a Portugal, que hoje guarda mais um pedaço de vida real que lá ficou, inalcançável às fotografias e às redes sociais que demonstram o seu agora. Isso porque não há tempo real em Portugal, lá a vida é pura realidade, e não é à toa que uma grande parte da boa literatura sobreviva nesta terra. O tempo real em Portugal leva o sujeito de volta para um lugar que quer ser uma grande morada para todos e que, no meu caso, não só conseguiu, mas fez questão de jogar na minha cara o significado de uma palavra tão brasileira como a saudade.

 


 

Morgana Rech (Porto Alegre, RS, Brasil) é psicóloga, mestre em Teoria da Literatura e escritora. Publicou Noites Mal Dormidas (Corpos, 2012) e Casa de Vidro (Multifoco, 2014). É cofundadora e editora do Canal Subversa.

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