Subversa

30 anos, nu | Felipe Eduardo Lázaro Braga

 

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Mas acima de tudo, eu tenho medo de ficar muito, excessivamente medíocre. Por isso, eu pesquiso palavras no dicionário. Quando encontro, em livro ou por aí, uma palavra desconhecida, eu pesquiso compulsivamente o significado, sem pensar nas consequências. Antes, eu deixava muitas palavras mudas que o contexto destrancava pra mim. Agora, minha autoestima depende completamente de acumular palavras, maiores e mesóclises.

Eu acho que a subjetividade dos meus 30 anos são essas duas marcas no rosto que cortam a desenvoltura do nariz até as laterais da boca. O rosto intacto de juventude, exceto por essas duas marcas que transformaram minha terceira década em anatomia – nada além disso, e ele já é outro. Esse rosto, ao mesmo tempo marcado e intacto, é um impasse cronológico a meio caminho de: estamos algo além das revoltas, na maturidade da juventude, e qualquer coisa aquém das conquistas, na juventude do resto adiante, uma idade mestiça entre o quase lá e o ainda não que, rosto e receio, além de ser 30, é crise antes de tudo.

Vou fazendo uma lista de palavras desconhecidas, e guardo tudo numa folha de sulfite, perto do aparelho  de WIFI da sala. Meu acervo está crescendo rapidamente, à medida que aumenta essa sensação estranha de ocupar um lugar maior do que o conforto, de estar o tempo inteiro mais apertado do que devia, como se o espaço estreito coubesse, ele inteiro, somente na fração que falta.

Cada palavra da minha lista é uma probabilidade. Qual é a probabilidade desta proparoxítona luso-latina? 1% dos falantes sabem seu significado preciso, e outros 2% reconhecem-na de aceno longe, sem sinônimo ou sobrenome. Esta outra probabilidade é um evento poético único no português decassílabo do século XVII, e este 4% morreu sem acento numa imigração forçada de Angola à fronteira.

O procedimento de acumulação que adotei é profundamente incômodo, preciso conquistar a forma ideal que a preguiça deixou lá na forma ideal: vejo uma palavra, leio a definição, julgo a estética por trás do seu retalho de significado, e deixo lá na folha. O que é a estética por trás de um significado? Um retalho: um pedacinho de tecido de estampa única em cuja geometria não cabe nenhum sinônimo. O procedimento é incômodo, porque minhas palavras estão à deriva na folha, sem os respectivos significados. O que é valhacouto? Esqueço novamente pra pesquisar mais quatro vezes depois, de sorte que cada ampliação de vocabulário tem quatro vezes mais idiotice que dicionário, nesse meu por enquanto que antecede a preguiça.

Ceteris paribus, a gente morre. Só vou aguentar mais uns 50 anos, 60 no máximo. Mais que isso, eu me mato. E é impossível que exista vida depois da morte, de tanto que eu não quero que exista. Eu quero terminar a quilômetros por hora no tobogã do nada, quero sucumbir direto pro lado de lá de mim. Aliás, eu acho que a eternidade paga pouco por esse anteontem de vida. Se bem que eu comi um pedaço maravilhoso de mamão, doce de tudo, há uns três dias atrás. Fiz a burrice de dar metade daquele mamão pra minha irmã, a vida poderia ter tido o dobro de significado. Agora já foi, valeu Camila.

A hipérbole de um dia cansado que se estende até a insônia: só hoje eu já me matei umas 14 vezes, cada uma delas com uma caneta marca texto diferente, pink-yellow-me.

De sorte que não há outro caminho a seguir, senão o atalho: eu tô ficando meio medíocre. Minha vocação ao meio-termo não me deixa ser completamente medíocre, complexamente medíocre. Eu queria ser a apoteose da mediocridade, eu queria ser a rainha da bateria do meio-termo, a estatística e a mediana sambando atrás e à frente de mim. E eu no meio. Tudo o que consegui, no entanto, foi ser mais ou menos medíocre: você pesquisa palavras no primeiro ao quinto dicionário do Google, e usa a terceira pessoa para olhar a própria mediocridade no espelho do outro. Minha fala, estrangeira até onde o português consegue ir, costuma não ser minha, mas rabiscada de antemão numa folha que esse outro cara escreve às madrugadas, com a caligrafia de 5ª série que o meu metro e sessenta tem até hoje.

Os 30 anos têm duas frações de vida: ½, 15 e 15. Essas duas adolescências cheias de si discutem juntas o entusiasmo de suas ambições, enquanto eu tô aqui comigo e com medo de trair o que já foi feito. Melhor não, tá bom assim, é mais seguro…

… e há também os momentos de paz e tranquilidade em que o plural do meu sossego é dormir junto, 8 horas sucessivas e encostadas um no outro na matemática de descanso único que é mais qualidade e fronha limpa, do que número ou 8. Que não é 30 anos e 15 e 15, mas soma de 57 consigo.

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Estar sem roupa, deitar nu, não é uma circunstância, é uma emoção. Penso que é necessária muita sensibilidade para sentir essa alegria tão íntima de si, que é a nudez. A nudez é, na superfície mais óbvia de sua pele, uma anulação de todos, ou quase todos os índices de pertencimento, de classe, de gênero, de receio, de prudência, de hierarquia. Mas eu não quero politizar a nudez, não quero tirar o sorriso tranquilo da minha nudez expansiva, que entreolha, nas escolhas da vida à frente, a liberdade das minhas recusas. Compartilhar as roupas jogadas no chão é um retorno tão fundamental, tão juvenil, tão completo a tudo aquilo que, caminhando a passo calmo numa velocidade de reencontro, ainda somos. A nudez é erótica? É, é uma emoção profundamente erótica, profundamente sensorial. Mas, para ser erótica, ela não precisa estar associada ao orgasmo, ou a qualquer excitação de compromisso sexual – embora ela seja uma excitação, a mais infantil de todas. A emoção erótica, de que a nudez é gatilho privilegiado, é uma sensação que percorre a intensidade do corpo inteiro, e não apenas a ponta magnífica e genital do nosso sexo. A nudez aflora-se num toque leve de ar, sol e si mesmo, a nudez transborda-se. Ou não: você precisa aceitar, com ingenuidade e permissão, o regresso criança àquilo que de primeiro fomos, e que somente a nudez consegue retroagir em presença. Eros suado na alegria do meu próprio corpo: nada é mais melancólico do que estar nu sem sentir a nudez, uma subjetiva que é sensação irrestrita em si mesma. E, completa em si, é profundamente alheia.

(30 anos é a década mais sossegada de tudo aquilo que os 20 não cumpriram, se nua. Se não, o primeiro dia dos 30 anos vira, no dia seguinte, 30 anos idênticos, sinopse de uma inclinação na barra que separa salário/sono).

Penso em como a mediocridade, palavra sonora, existe para ofender o nivelamento: essa sensação de idêntico nu e compartilhado, de despretensão e vivência, de pura anatomia em cores quentes e horizontais, é a consagração do nivelamento, é a menor distância que a maior proximidade consegue ter. A recíproca sem roupa que abandona qualquer outro resquício que não a ideologia do corpo e suas sensações, une. Essa é a minha utopia, uma cidade eufórica de gente nua, uma tribo de bilhões. Não precisa ser sexo, porque é mais intenso que sexo. Não precisa ser genitália, embora eu não a recuse. Embora eu não as recuse, que a minha nudez vem com o socialismo do plural.

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Da cintura pra cima, eu escrevo a lista, da cintura pra baixo, eu tô pelado, meio a meio. Eu sou, para os outros, eu mesmo da cintura pra cima, mais bem ensaiado. E olho os outros nos olhos, da cintura pra cima. E estamos todos mutuamente impressionados com a riqueza, sofisticação e abrangência do vocabulário uns dos outros, nesta noite curta que vai dos 30 até o fim do jantar.

Mas é inevitável: quando a palavra exata, preparada com insônias de antecedência, vira corpo – digamos, vira um espirro, ou um bocejo, ou um arroto, inevitavelmente corpo – percebemos uma parte do indivíduo que, por distração, não havíamos notado até então: ele está metade vestido, e metade nu. Eu olho com espanto a vulnerabilidade de uma nudez que, idêntica no outro, – também ele corpo! –, pensei ser só minha. E diante dessa nudez bonita e alheia, cuja palavra, antes de ser probabilidade, virou corpo, eu me visto: me visto sem reciprocidade com o retalho de um sentido único, deixo-o sozinho e seminu na frente de todos, a distância na extensão cordial do meu silêncio. E todos, como eu, pronunciam sua mais indiferente probabilidade, bem vestidos e argumentando bem, talvez desconfortáveis, como eu, com a própria nudez que o corpo do outro antecedeu. Meio pelados, meio vestidos, escolhemos o ponto mais seguro do meio-termo, a que os geômetras chamam de mediocritate.

E se, no lugar da reciprocidade, o melhor de mim foi o devaneio, o que eu não fiz é a metade da companhia que faltou à coragem. Fico nu. Estreitamente nu. Com meu lado pelado e as boas-vindas do dele. Sem pronunciar uma palavra. A nudez completa que é, na metade do outro, um único um.


Felipe Eduardo Lázaro Braga  | Oscasco, Brasil | Sociólogo e pesquisador | braga.felipe@aol.com

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