Subversa

1989, | Felipe Eduardo Lázaro Braga

 

O som era um disparate de pancadas. Até virar música, eram altos e fechados timbres como tiros. A voz grave, metálica, conferia unidade à falta de coesão. Uma queda seca era seguida de dois metais, o quarto som era sempre inesperado, o tempo variante do intervalo impedia expectativas. A voz puxava o ar em volta pra cantar com agressão um verso meio pronunciado, o som pulmonar chiava a duração inteira da música. A velocidade rítmica aumentava e diminuía na sequência física daquela respiração enferma, alucinada, os sons entravam no corpo daqueles gritos. Uma sequência rápida de batidas elétricas e idênticas cortava o volume dos socos e tiros, aqueles sons literalmente caminhavam entre a gente, atravessavam a porta do quarto branco e infiltrado, tinham cores e cheiros. O percurso era átono em suas unidades, mas formava, no conjunto, tudo o que precisávamos ouvir. Era uma unidade perfeita de aparições sonoras, cada ruído isolado sangrava, para recompensar no conjunto. A percussão da madeira quebrada vibrava minhas sensações mais remotas, vibrava órgãos e músculos, de modo que quem produzia o som era meu próprio corpo, de dentro pra fora, até a saliva do Gabriel. Meu medo era de que a música ficasse insuportável demais a ponto de não aguentar tanto prazer, de não seguir mais a altura da última nota, de pular da janela desesperado e agradecido.

Era isso que a gente fazia, ouvia música juntos.

Esse trecho do Otávio tá amarelo e oxidado na borda, e o raciocínio, intacto, permaneceu em mim por causa da ausência: nós três tivemos o privilégio de transformar a generosidade política dos anos 60, que herdamos via lucidez afetiva dos pais, em uma compreensão íntima de Minas Gerais, nós iniciamos o intervalo de uma adolescência que durou até não ser urbana. Naquele janeiro de 1989. O plano de viagem, premeditado de formatura, e colorido na véspera de um fusca azul, transformou em escala nossa proximidade de anos: levar o carro à penha por vários municípios, com os Montes meio sem prazo no fim da estrada. Fugir de toda a caceteação dos anos mais irritados, que nem eram tão ruins. Aliás, que eram puro privilégio. Seguindo as sensações do corpo mútuo, abandonadamente lisérgicas, corpo e consciência um do outro: critérios de afinidade. Enfim, viver um conteúdo remotamente ideológico que a gente batizou de ócio. Nós éramos jovens e homens. Portanto, só conseguíamos compreender o mundo a partir da nossa vontade mais imediata. Todos os ideais que professávamos, não passavam de uma caricatura de pertencimento, aprendemos a pronunciar corretamente as expectativas ideológicas do entorno. Esse foi o verdadeiro conteúdo da nossa revolução: não melhoramos coisa alguma, mas fomos suficientemente corajosos para viver as consequências da imaturidade.

Durou alguns meses, e foram bons.

Não durou meses, a nossa viagem, como todas as juventudes: duraram pessoas. Centenas de milhares, devastando um muro de secessão comunista. Dezenas de milhões, votando pra presidente pela primeira vez na vida. Cazuza lançando seu último O Tempo não Para. E um sujeito completamente anônimo, carregando uma sacola de frutas, parou em frente a uma fileira de tanques, impedindo-os de chegar à Praça da Paz Celestial: 1989, Santana dos Montes – Minas Gerais.

De quanto à pressa, a pessoa na minha frente era sempre uma continuidade enorme. A parte mais interessante de estar na presença de alguém, era recolher os sintomas que me permitiam enxergar a distância mais interessante dela. Eu queria encontrar, no tom de voz impositivo ou na simpatia caricata e subalterna, o compromisso físico daquele sujeito com o próprio prazer, com as várias complexidades do corpo disponíveis à exploração. Encontrar as pessoas na rua era, pra mim – e também pro Otávio e pro Gabriel, depois que eu compartilhei essa minha pequena obsessão –, o mesmo que encontrá-las no quarto branco com as paredes infiltradas. Ou no escuro, na vegetação cerrada, em Minas Gerais. Eu não fantasiava nenhuma reciprocidade, eu gostava de julgá-las fechadas em seu próprio egoísmo, eu queria encontrar, em todos, a violência, o rosto contorcido, as expressões sem controle, eu queria que as pessoas escorressem diante de mim. E não comigo. Elas eram, a todo momento, uma presença expandida, elas eram o efeito colateral passageiro de um outro mundo mais genuíno, onde o melhor de mim se realiza apenas na fração de prazer que eu ainda não aumentei. Em cada uma delas, na rua, nas compras, quem visitava, eu enxergava o mesmo desespero de satisfação, ou desprezava a inércia comedida de quem não aceitou enfrentar o próprio esgotamento. O erotismo universal conduzia minha empatia, de modo que o critério de interesse de uma personalidade era a personalidade que se realiza longe, era sua incapacidade de banalizar o prazer, de produzir sempre e renovadamente novos impulsos de sensação. Até onde uma pessoa é capaz de ir era nosso critério pra julgar até onde uma pessoa chegou.

Ou, dito de outro modo: só existem duas formas de terminar a juventude, e a pior delas é envelhecer.

 

Não tenho, de minha parte, o mais remoto medo de voltar a janeiro, aquele mesmo que em Santana dos Montes se manteve ileso: 31 anos inviolados. Olha o que eu achei, no meio de A Insustentável Leveza do Ser. É do Otávio, amarelo e oxidado na borda: “O tato contornava a temperatura de nós três, éramos três artesanatos de suor. O fim do meio dia colava nossos corpos até o melhor suspiro, num segredo grato demais pra guardar. Tão próximo um do outro, que é outro até onde eu mesmo?”. Sensacional, Ota. O “melhor suspiro”, porém, é um palpite autoral meu, a caneta azul começou a falhar na frase anterior, e obrigou o texto dele a terminar de preto, com o “melhor suspiro” no contorno reforçado dos dois tons. E a caligrafia, extensa e amaneirada, mais exibicionista do que clara, é sinônimo de uma personalidade feminina, que ele sempre teve.

O Otávio merecia ter vencido a juventude, ninguém com tamanha multidão dentro de si tem o direito de terminar impune.

É o nosso mártir da juventude: ao se transformar na juventude que termina, ele acabou humanizando o fim, virou o tempo de quem se lembra.

De modo que as durações sejam pessoas, para que acabem, é o Ota.

O quarto do limite anterior, com as paredes infiltradas e antigas de tinta branca, é sempre insuficiente, há o passo mais largo depois da exaustão que o corpo exige de novo, pra fora das mesmas paredes brancas transpirando. Esse corpo não entende o meio termo: ou ele é mais, ou ele desiste. De modo que a vida começa a convulsionar tão violentamente, que deixa atrás de si um rastro irrespirável de destruição e palidez, uma beira de espasmos que é dor, agonia e sobrecarga, no meio de tanto prazer. Até ser sangue, eu realmente pensei que fosse prazer inédito, um rosto bonito, sorridente e contorcido, no limite insuportável de si mesmo, linha em que o prazer cruza o desespero. E depois disso, tudo já é inevitável: sangue, vómito e sémen, e gente jovem demais deitada de bruços. Eu e o Gabriel. Acabar é a intensidade impossível – a própria definição de intensidade absoluta – que não pode ser maculada com medo ou culpa. Por que pedir desculpas? A gente tem que ter convicção dos próprios erros, sentir até o fim, quando o corpo se divide em inúmeras velocidades antagônicas, cada centímetro mobilizado para sua própria satisfação. Com sede. Experimentar o limite descarrilado desse percurso. Chegar ao prazer definitivo sem uma lágrima. Melhor se sujo, exausto, amado pelos amigos. E no instante definitivo em que a última respiração ainda é sensação, presa no pulmão até o segundo exato que me ultrapassa, a paga: finalmente extrema, insuportavelmente aliviada.

Todos os guitarristas, no auge de suas próprias adolescências, prometeram que, como um shot de heroína, o último prazer até onde o corpo dá conta, é.

 


Felipe Eduardo Lázaro Braga |Osasco, Brasil | sociólogo e linotipista | braga.felipe@aol.com

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